Muito mais: Filmes de drama, Filme, Fantasia, Filmes de guerra, Filmes de terror, Amazon Prime, Terror, Cinema, Guerra, Drama

Algumas histórias encontram diferentes panos de fundo para serem contadas. Por vezes, o horror de suas temáticas trazem gêneros mais imaginativos, como o terror ou a fantasia; por outras tantas o puro drama é mais do que o suficiente para abrir o diálogo com o espectador. No caso de “Madres: Mães de Ninguém”, produção da Blumhouse para o Amazon Prime Video, claramente existe a premissa tocante e revoltante de mulheres que tiveram a gravidez tratada como algo antinatural, ao mesmo tempo em que o terror toma conta de todo o filme como a solução encontrada para falar sobre o tema, muitas vezes considerado tabu.

Porém, ainda que a premissa esteja presente, e seu desenvolvimento ocorra durante o filme, o pano de fundo acaba se sobrepondo à temática, e o clichê é excessivamente jogado em tela, com sustos rápidos feitos com base em nada, a não ser o efeito sonoro consequente. A partir disso, então, o espectador mergulhará na vida do casal Diana (Ariana Guerra) e Beto (Tenoch Huerta), quando se mudam de Los Angeles após sentiram os efeitos da demissão e, com isso, vão para o interior da Califórnia após Beto receber uma proposta de trabalho em uma fazenda local. Como Diana está grávida, a preocupação do casal com o futuro da família foi o gatilho necessário para a mudança.

Assim, ao se instalarem em um casarão isolado de todos, Beto logo mergulha no trabalho, enquanto Diana precisa lidar, sozinha, com as mudanças sofridas. Com o passar do tempo, porém, ela começa a sentir uma presença sobrenatural naquela fazenda, e a única pessoa que parece compreendê-la é Anita (Elpidia Carrillo), dona de uma loja na cidade e altamente espiritualizada. Além disso, Diana sofre por ser descendente de latinos sem saber espanhol, enquanto os demais, inclusive seu marido, celebram os momentos distantes dos americanos através da cultura do país de origem. Com o preconceito exacerbado de certas pessoas, a protagonista se isola cada vez mais.

Com isso, o que poderia ser um longa-metragem altamente político, sobre o tratamento da cultura mexicana como subserviente ao olhar de diversos norte-americanos, acaba descambando para uma sucessão de encontros espirituais com o que parece ser uma entidade que vem avisar Diana de algo – ao melhor estilo assustador/assassino, é claro. Aos poucos, então, a protagonista passa a se preocupar com o nascimento de seu bebê, pois ninguém mais parece se importar com isso além de seu marido.

O problema maior, porém, é que o filme jamais trata de sua temática, que se esconde através do pano de fundo do terror, deixando de lado as discussões que o tornariam muito mais interessante. O pior, porém, é que antes do desfecho sobre a hegemonia branca que continua assolando os Estados Unidos, e aqui apresenta um ponto de vista visceral, é a existência de um longo desperdício que compõe praticamente o segundo ato inteiro, ou seja, o miolo do longa, quando as explicações surgem e os conflitos aparecem e ganham meia resolução. Aqui, o espectador sentirá o efeito aborrecido de um longa que não desenvolveu sua própria premissa, e que decidiu apresentá-la somente no desfecho, em uma tentativa falha de fisgar o espectador pelo horror de tal realidade, a qual não foi exposta sequer em um pedaço do longa.

É uma pena, portanto, que este “Madres: Mães de Ninguém” não tenha ido para o lado prometido. Ao contrário do excepcional “O Orfanato”, que também usou o terror como pano de fundo de sua crítica e de sua emocionante história, este não conseguiu. O roteiro, aliás, é um dos maiores problemas. Mario Miscione e Marcella Ochoa pareciam rascunhar a promessa de uma história sobre mães que perdem seus bebês, e sobre as causas por trás de uma crença sobrenatural, algo que verdadeiramente acontece nos Estados Unidos (e em tantos outros países) há séculos, e que cada vez mais faz parte de uma iniciativa tenebrosa que evoca a hegemonia branca como principal razão. E esse poderia ser o terror mais do que suficiente para o roteiro trabalhar, mas não é isso o que acontece.

Infelizmente, portanto, “Madres: Mães de Ninguém” perde a oportunidade de falar mais do que muito produto da cultura pop, em geral, falou. Mas decidiu se encaixar na forma já gasta do terror de sustos fáceis e atuações exageradas. Uma pena.

O post Crítica | Madres – Mães de Ninguém (Prime Video, 2021): não passa de boas intenções apareceu primeiro em Cinema com Rapadura.

Crítica | Madres – Mães de Ninguém (Prime Video, 2021): não passa de boas intenções

Gostou do post? Deixe seu comentário!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.